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Reencarnar não basta

14/05/2017

Reflexões sobre o suicídio juvenil à luz da Doutrina Espírita

O tema escolhido para esta reflexão atende as inquietações atuais, momento de extrema fragilidade e angústia, que atinge famílias e profissionais da saúde. Acrescente a este quadro, autoridades policiais impotentes diante do número de denúncias crescentes do suicídio juvenil.

A morte autoprovocada, de adolescentes e jovens adultos, tem aumentado assustadoramente e o que antes ficava circunscrito nos núcleos familiares e profissionais implicados, toma conta da mídia, das redes sociais, das reuniões de pais e professores, do bate papo entre amigos, em compartilhamentos sucessivos das imagens e dramas mortais.

Fomos invadidos pelo jogo chamado Baleia Azul que, até onde se sabe, começa com desafios fáceis, com gratificação imediata, para que o adolescente seja atraído. Seduzido pelo jogo, tem início a manipulação sádica através de solicitações cada vez mais bizarras e cruéis. O que era uma simples curiosidade se transforma em pesadelo. Diante da chantagem de ter seus familiares implicados e sem recursos para pedir socorro, acaba por obedecer às solicitações e cometer suicídio. Podemos inferir que nestas tragédias o adolescente se dá em sacrifício pelas ameaças feitas à família, caso interrompam o jogo. Podemos também pensar que o suicídio é grupal, na medida em que os familiares e todos os implicados, acabam por morrer psiquicamente, tendo que carregar pela vida, esta imensa e irreparável culpa. Massacre psíquico e físico deste grupo de irmãos espirituais que planejaram suas reencarnações, na esperança de serem capazes de superar questões que os fizeram sucumbir em sucessivas encarnações.

Somado a este quadro dramático do jogo Baleia Azul, temos a série “Thirteen reasons why” (os treze motivos), baseado no best-seller de mesmo título lançado em 2007. A série gira em torno de Clay Jensen, um estudante reservado, tímido do ensino médio, que encontra na porta de sua casa uma caixa com 13 fitas cassete que foram gravadas por Hannah Baker, uma colega que cometeu suicídio recentemente. Cada um dos lados das fitas Hanna denuncia pessoas do seu convívio, relatando os motivos, que a desiludiram e machucaram, tornando-as assim responsáveis por sua morte. Trata-se de uma série pesada, densa e agressiva, na medida em que não poupa o público dos detalhes mórbidos, esmiuçando o ato contra a própria vida.

Um detalhe que considero ainda mais agravante é a maneira como introduz para o público adolescente e suicidas em potencial, a ideia de vingança, de fazer justiça com as próprias mãos, atuando de maneira perversa no destino daqueles que acredita serem os responsáveis por sua dor.

Podemos aqui levantar uma questão: O suicídio e a condenação de seus pares teriam o poder de aliviar e terminar com sua dor?

“ (...)para o que não crê na eternidade e julga que com a vida tudo se acaba, se os infortúnios e as aflições o acabrunham, unicamente na morte vê uma solução para as suas amarguras. Nada esperando, acha muito natural, muito lógico mesmo, abreviar pelo suicídio as suas misérias” (“O suicídio e a loucura” O Evangelho segundo o Espiritismo.)

À luz da Doutrina Espírita parece que não. O que deveria ser um livramento acaba por precipitar o suicida à um terrível sofrimento, aumentando sua dívida cármica e acorrentando-o a todos os acusados.  Passaria a viver afinado à dor de cada um até que todos tenham fechado este ciclo de aflição e desespero.

O suicídio sempre foi um desafio e sempre assombrou as famílias.

Ele está também na infância, apesar de ser um assunto polêmico no meio médico e psicológico. O corpo que reencarna é infantil, mas o espírito não. O espírito traz inconsciente, a memória, o conhecimento instintivo, assim como traz em si, toda uma história pregressa, dramas, inimigos contumazes que o acompanham, culpas que o envolvem e medo das experiências que terá que passar.

“Aliás, não é racional considerar-se a infância como um estado normal de inocência. Não se vêem crianças dotadas dos piores instintos, numa idade em que ainda nenhuma influência pode ter tido a educação? Algumas não há que parecem trazer do berço a astúcia, a felonia, a perfídia, até o pendor para o roubo e para o assassínio, não obstante os bons exemplos que de todos os lados se lhes dão?” (O Livro dos Espíritos, Kardec A., questão 99ª)

Assistindo a uma palestra do querido amigo de Porto Alegre, Gelson L. Roberto, psicólogo, Membro Analista da Associação Junguiana do Brasil e Kardecista, próximo à Divaldo, ouvi contar sobre uma passagem na vida de Chico Xavier, quando uma senhora levou seu filho até ele rogando que a ajudasse, visto que a criança havia nascido com muitas sequelas de limitações orgânicas e já com seus bracinhos amputados, corria o risco de ter que passar por amputação também nas perninhas. Chorando pediu à Chico que a ajudasse ao que ele respondeu que, Emannuel ali estava e dizia que seu filho era um espírito que, por inúmeras encarnações, usou do suicídio e que na reencarnação em curso estava fazendo de tudo para se manter no corpo. Sendo assim a amputação da perna se fazia necessária, visto que, com apenas cinco anos de idade, já pensava em suicídio.

Ainda que não tenha causas pregressas, as condições miseráveis de vida, sucessivos abandonos, rejeições, abusos de toda ordem faz com que a psique da criança e do adolescente congele suas emoções, fazendo uma cisão de si e do mundo, reprimindo as verdadeiras emoções e criando uma ilusão de pais e mundo perfeitos. Desta maneira a criança se desenvolve como se tudo estivesse em harmonia, transferindo a dor para locais menos iluminados. ficando assim, a energia agressiva ali depositada,  atuando contra ela mesma, o que pode, em algumas teorias psicológicas, promover depressão infantil promovendo situações diversas de risco.

Da mesma maneira, o jovem em crise de identidade, própria da adolescência, pode mascarar seu desejo de morte se deixando envolver por inúmeras pseudo felicidades. Parece existir um certo encantamento, uma atração ao suicídio ou ao sofrimento auto infringido nesta fase, Cada vez mais a juventude usa como mamadeira o energético, drogas os alimentam, a cantiga de infância virou ritmo constante e hipnótico das Raves, o sexo é indiscriminado, o beijo antes íntimo e romântico passou a ser contabilizado ao final de cada festa, a direção imprudente no trânsito, a busca de enfrentamentos físicos nas torcidas organizadas ou em grupos agressivos e tantas outras oportunidades, são portais para que saiam desta vida que não suportam enfrentar.

O suicídio tem sido o grande desafio e o ser humano nunca teve para com este mal uma postura honesta e corajosa, não consegue acionar o verdadeiro amor e compreensão para com aquele que sofre. As famílias, nestas situações extremas, são isoladas pela sociedade ou se retiram, por preconceito sobre si mesma, ao claustro das paredes de seu angustiado lar.

Sempre foi tabu e hoje esta condição foi quebrada, fomos invadidos pelo assunto. Hoje somos todos obrigados a enfrentar, visto que as redes de comunicação atravessam nossos mundos fechados em si, com narrativas do Jogo da Baleia Azul em riqueza de detalhes e imagens, assim como a polêmica série que traz a violência da destruição do próprio corpo, o autoextermínio de Hannah que justifica seu ato a partir do sofrimento causado pelo grupo social no qual vivia, atuando como um perverso obsessor via depoimento pós morte.

Assim o que parece ser um mal, torna-se inestimável bem, na medida em que o jogo da Baleia Azul e a série “Thirteen  reasons why ou “os 13 porquês”, abrem para o mundo o drama até então proibido, interditado. Podemos hoje arejar o assunto, retirá-lo das profundezas escuras que nos víamos obrigados. As famílias e redes de amigos podem olhar e refletir, sobre esta sensação de morte à espreita, nos lares onde esta terrível tragédia vem acontecendo de maneira crescente.

Aos familiares o convite para que se aproximem, acompanhem seus filhos, não de maneira autoritária, mas em havendo oportunidade, reflitam juntos sobre as questões da vida, conversem sobre as dificuldades diárias com amigos, com o apaixonamento correspondido ou não, sobre drogas e álcool, sobre filmes, notícias, arte e literatura. Ouça, abra espaço para que seu filho possa construir valores próprios a partir da reflexão demorada, sem pressa. Construção segura se dá no tempo, com material de qualidade, portanto favoreça a comunicação não invadindo nem cortando a oportunidade com opiniões fechadas. É preciso criar espaços amorosos na certeza de que assuntos que se demoram na zona de penumbra, longe da compreensão, podem resultar em doença.

Precisamos urgentemente cultivar a presença e não o discurso. Esteja disponível, ouça, pratique o “ouvir”. Temos ansiedade em dizer, em ajudar à nossa moda, em resolver o problema alheio que é muito mais rápido e fácil, mas não sabemos ouvir. Atropelar aquele que sofre, resulta em afastamento. Quando não ouvimos entregamos a pessoa que sofre para o mundo das sombras, entregamos para os obsessores de plantão, sempre prontos a colocar mais peso e menos luz nas situações de dor, a envolver e precipitar para o submundo espiritual.

Chico Xavier conta-nos uma passagem em que estava triste, calado e deu um suspiro demorado, com um “Ai meu Deus” quando então uma entidade das trevas se aproximou e disse, “ me chamou ?”,  então Emmanuel ao seu lado disse, “ não diz que não, porque  você chamou”. Então Chico silencia, medita por um instante e responde, “ chamei sim meu irmão. Estava aqui pensando nas questões difíceis da minha vida e gostaria que você me abençoasse em nome de Jesus ao que o espírito respondeu “desta vez você escapou, mas estou no seu pé”.

Lembro desta passagem para que ela nos inspire à oração, aos tratamentos na casa espírita quando se faz necessário, ao evangelho no lar, aos bons livros e filmes, às boas rodas de conversas elevadas, que são aparelhamentos contra as trevas em nós e fora de nós, mas principalmente conto para tocar seu coração para a caridade aos que sofrem de depressão e encontram-se rodeados de pensamentos suicidas. Se Chico passou por este momento podemos imaginar o quanto é difícil para os irmãos em sofrimento perceberem as aproximações e terem a iluminação necessária para se abrigarem na oração.

A reencarnação traz consigo não só historias a serem continuadas na vida presente, como também uma estrutura orgânica que predispõe à problemas psiquiátricos que podem levar ao suicídio. Estejamos presentes! Se não tiver uma palavra que realmente salve, silencie e ore enquanto ouve. Às vezes a pessoa só precisa desabafar.

Somos irmãos, somos Um em Deus e enquanto existir um único ser em sofrimento não alcançaremos a felicidade total, portanto, o sofrimento se dá onde a conexão com Deus se desfez. O sofrimento ganha significado quando está diretamente ligado à Divindade, ao Pai, quando então a fé nos eleva e nos faz suportar e superar a dor.

Que Jesus nosso Mestre amado, ilumine nossos caminhos.

Ainda que estejamos em meio às trevas, que sua presença em nosso mais íntimo recanto, seja o farol que ilumina de dentro para fora, encorajando nosso caminhar, dizendo em nossos corações que seremos vitoriosos na fé.

 

Lunalva Fiuza Chagas
Psicóloga e voluntária da Casa de Jesus


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